Entrevista com a Arquitecta Patrícia Barbas

Acho que a arquitectura é fundamental nesta visão global da cidade e como é que isto pode evoluir. E mesmo as questões de hoje, do turismo, da pressão, do alojamento local, acho que a nossa disciplina é fundamental para ajudar nesta equação.

Lucinda Correia - Patrícia Barbas, como é que poderia definir o momento actual de transformação de Lisboa? 

Patrícia Barbas - Eu acho que a transformação de Lisboa é um processo natural de alguma forma porque, como exemplo, temos as capitais europeias todas que foram sujeitas a esta questão do turismo. E, portanto, Lisboa conseguiu, ficou congelada no tempo, e daí a nossa surpresa com estas alterações que, para nós, são rápidas, mas, na verdade, o exemplo no resto da Europa deu-se há mais tempo. São sentimentos ambivalentes. Por um lado, eu sinto que são mudanças necessárias porque nós tínhamos um tecido urbano bastante deteriorado em várias zonas da cidade e, portanto, isso vem acrescentar qualidade de vida. Mesmo relativamente aos espaços públicos, há esse investimento. Por outro lado, isto vai depender muito de decisões políticas e acho que também temos que aprender com alguns exemplos de fora ou as boas e as más experiências. Porque pode correr bem ou pode correr mal. Portanto, eu vejo esta transformação ainda um bocadinho a tactear o que é que poderá ser no futuro. É um caminho obrigatório.

LC - Incontornável, de certa maneira. Depois depende da maneira como o levar-nos para a frente. Em Lisboa e no Porto, nunca os arquitectos produziram tanta mais-valia financeira para o sector imobiliário. Qual é o seu lucro nesta equação? E depois, um segundo ponto, qual é afinal o papel da arquitectura nisto tudo?

PB - Isso é outra provocação porque, na verdade, a arquitectura acrescenta valor. Ou tem essa obrigação. Porque quando se transforma ou qualifica, está subjacente esse acrescento de valor. Nos dias de hoje é crónico na nossa profissão, no nosso país, o valor do nosso trabalho. E vamos à velha questão da tabela de honorários e isso faz com que os arquitectos acrescentem valor e não são pagos em consonância com o lucro da operação. Mas isso leva-nos a questões da prática. E havia uma justificação há uns anos, que era crise e a crise foi duríssima para os ateliers de arquitectura. Eu vejo que para nós, aqui, Barbas Lopes, apanhou-nos exactamente naquela altura que é quando tu já tens a idade e é a altura de levantar voo, e a crise faz-te recuar. Eu acho que são questões urgentes, mas que, pelo menos pela Ordem, que é a entidade que nos representa, acho que estamos aqui num beco sem saída. E comparando pelo menos com realidades das quais nós estamos próximos, por exemplo, os suíços.... Isto é uma anedota porque continuamos com condições de trabalho completamente precárias.

 

LC - E isso pode representar um não reconhecimento do papel que a arquitectura pode ter? Esse não reconhecimento, não valorizar o trabalho concreto do arquitecto, pode também retirar importância - sendo que todas as profissões têm importância, não somos mais importantes que os outros - e até uma utilidade que a arquitectura podia ter, mais ampla, que acaba por ser uma espécie de profissão oprimida?

 

PB - Há um problema da educação no sentido da cultura. E de perceber, o comum dos mortais, a importância da disciplina e a mais-valia. Mas, nesta provocação que tu colocaste, eu vejo isso do ponto de vista de um promotor. E essa mais-valia, e na verdade acho que não há dúvidas que está a acrescentar valor. Enquanto escolhe o arquitecto, é exactamente a fazer essas contas de quem é que acrescenta mais valor. Portanto essa questão, nesta pergunta mais direccionada para hoje e a pressão que temos hoje, relativamente a Lisboa e Porto, a grande encomenda tem a ver com esta... não estamos a falar da pequena remodelação. Estava a enquadrar estas operações com alguma dimensão. E aí é o promotor e gestor de projecto que tem a consciência absoluta que quando chama um arquitecto está a acrescentar valor ao produto que quer vender. E aí acho que o problema é mais grave. Ganhar o mais possível e gastar o menos possível. Mas eu acho que nós, arquitectos, somos os nossos piores inimigos. Porque não te fazes cobrar. É uma faca de dois gumes. Porque por um lado precisas de angariar trabalho e até és capaz de te atirar para situações precárias. Por outro, isso está-te a destruir completamente a possibilidade de tu fazeres um bom trabalho, de tu poderes ser uma fonte também de dar trabalhos a colegas. Um atelier não é uma pessoa, são várias. Um atelier, por mais pequeno que seja, tem que ser viável. E na verdade, o que se vê no mercado não corresponde a isso. Se continuarmos assim nunca vai haver pressão sobre quem faz a encomenda. Um trabalho tem que ser pago em consonância com o trabalho que produzes. É absurdo porque cada vez temos mais responsabilidade civil.

LC - Mas achas que isso é um trabalho sobretudo da Ordem?

PB - Eu acho que é um trabalho da classe.

LC - É um trabalho da classe, que a classe ainda não fez. E se calhar a fragilidade da classe também tem a ver com isso. Quer dizer, não é que não tenhamos consciência, mas depois não se faz mesmo.

PB - Houve, do que eu me lembro, dos últimos anos, lembro-me que o Pedro Ravara andou a trabalhar nisso, e mais gente. Ainda por cima porque haveria casos comparativos em que há tabelas, não é, que balizam. Num concurso público tens a questão do preço, mas se vais abaixo do limiar, é o anormalmente baixo. E isso deveria ser aplicado aos honorários dos arquitectos. Quando tu fazes uma proposta e que está anormalmente baixa, tens que justificar porquê.

LC - E sabemos da experiência dos concursos que esses valores nunca são cumpridos. Se fossem cumpridos, ok, então isto funciona. Mas quando não são, se calhar o critério do custo não é um critério muito interessante porque é sempre alterado. Aliás é sempre, em qualquer concurso, é muito difícil de cumprir exactamente aquilo.

PB - Tem que haver um balizar. Quando vais um médico, pagas a consulta, está estabelecido, ou a um advogado, e nem questionas. Há tabelas oficiais que balizam essa prestação de serviços. E nós estamos completamente desregulados e eu acho que o facto de se justificar isso porque a União Europeia é um mercado livre, não serve de justificação.

LC - E o que pensa das obras de reabilitação que estão a acontecer em Lisboa? Poderemos falar de uma nova cultura da reabilitação? Também é outra provocação. Há muito tipo de obras, mas aqui estamos a falar das operações, obras com alguma dimensão, e estamos a falar do fachadismo, um tipo de obras que se perpetuou e que continua a vingar, nalguns casos justificável, noutros não. Cultura no sentido em que se encontraram, ou parece que apareceram umas formas que são utilizadas de forma irrefletida em muitos casos. Noutros não.

PB – Sim, é quase uma receita. Eu não gosto de ver a coisa assim. Esta questão da reabilitação, acho que não há uma receita. E, portanto, é uma leitura caso a caso. Claro que transportas know-how de uma experiência para a outra, mesmo de coisas diferentes. Não é tabula rasa cada vez que fazes uma remodelação, mas, relativamente ao fachadismo, também é um problema de cultura, acho eu. Aliás, estou a lembrar-me do caso do Souto Moura, nem vamos questionar a qualidade dos trabalhos porque não é essa a questão, mas na Praça das Flores, introduzir uma fachada moderna levantam-se muitas questões. Entretanto, a cidade é feita de todos os tempos. Mais uma vez, eu acho que é um problema cultural. Às vezes costumo brincar que nós somos capazes de ir a qualquer cidade europeia ou Nova Iorque, em que tens edifícios com altura e que convivem com edifícios mais baixos, mais antigos, de várias épocas, e encaras isso com naturalidade. A cidade tem este tempo que a atravessa e conta uma história. E aqui há sempre a questão da mudança, há sempre uma reacção negativa. “Ah, isto vai mudar, e então vai mudar pior”. Partes do princípio que é sempre para baixo. E isso, do meu ponto de vista, é um problema cultural, mesmo. Desta desconfiança à mudança. Acho que há imensos equívocos nesta questão de manter as fachadas. Há casos que faz todo o sentido porque a leitura do conjunto pode fazer sentido e se a própria intervenção no interior funciona com uma fachada existente, porque não mantê-la? Nesse princípio quase de sustentabilidade, de fazeres mais com menos e, portanto, de aproveitares, há ali coisas que estás a reciclar. Mas por outro, às vezes é assim uma forma de não levantares o verdadeiro problema. E o que me faz muita impressão é quando tu, supostamente, manténs uma fachada, mas depois as cantarias, todos os revestimentos são refeitos e são utilizadas coisas sem espessura.

LC - Estava a pensar agora na ideia da comissão de ética que nós não temos. Isso leva-nos um bocadinho à questão da qualidade e dessa capacidade que a interpretação do arquitecto tem para responder ao problema, mantendo a fachada ou refazendo, enfim, o que for a solução mais indicada, explicada, porque é que se propõe aquilo. Por um lado, a sociedade civil manifesta-se, e eu acho interessante que as pessoas se manifestem porque também percebemos onde é que estamos, mas depois parece que não há um diálogo para encaixar essas queixas, essas indignações. Há um trabalho de diálogo que não existe, são monólogos. O arquitecto diz uma coisa, as pessoas dizem outra.

PB – E, na verdade, essas pessoas que se manifestam para a manutenção de uma fachada, eu gostaria de os ouvir, depois o que é acham que é uma pseudo fachada existente.

LC - Como é que vês a cidade de Lisboa daqui a 10 anos?

PB - Eu adoro Lisboa. Vivo eu Lisboa porque escolhi viver em Lisboa e não quero viver noutro lado. Tenho esta relação afectiva. Acho Lisboa é uma cidade fantástica e que ainda tem muito por fazer e para melhorar. Eu espero, não vou dizer como é que vejo, vou dizer como é que espero ver a cidade daqui a 10 anos. Espero que alguns trabalhos que foram feitos ou a que se deu início, por exemplo, nós estivemos a fazer o perfilamento da Av. Fontes Pereira de Melo e eu vejo essa questão do espaço público e o programa "Uma praça em cada bairro". Espero que daqui a 10 anos a cidade e o espaço público seja a continuação da casa dos lisboetas e que seja visto e usado como tal. E a questão da mobilidade. É que estes últimos anos têm sido incríveis de observar. A coisa das bicicletas, das trotinetas, esta mudança de comportamento. Tu largares o carro, moveres-te de uma forma mais livre. Aí tenho a esperança que isso também contribua para o tempo que tu perdes a olhar para as coisas. E eu tenho mesmo esperança que daqui a 10 anos esta questão cultural de que estávamos a falar tenha tido consequências. Porque acho que é mesmo a forma de os lisboetas olharem a cidade. E se te moves mais devagar também tens mais tempo para olhar. E daí também isso poder contribuir para uma alteração de comportamento. E de tu dares realmente valor ao espaço que é de todos. E há alterações que eu gosto imenso de ver nos últimos anos. A utilização dos jardins, a forma como os lisboetas alteraram o estar no jardim, é incrível. Desde que vivo em Lisboa que uso o Jardim da Estrela porque foi sempre um sítio próximo e que atravesso várias vezes e é incrível a mudança em 10 anos, 15 anos, a forma como as pessoas vivem o jardim e vivem o exterior. Espero que Lisboa daqui a 10 anos seja uma cidade melhor para viver. Aí voltamos à coisa que é preciso criar condições para que as pessoas vivam em Lisboa. E eu acho que a arquitectura é fundamental nesta visão global da cidade e como é que isto pode evoluir. E mesmo as questões de hoje, do turismo, da pressão, do alojamento local, etc, acho que a nossa disciplina é fundamental para ajudar nesta equação.

 

 

 

Patrícia Barbas é formada em Arquitectura pela FAUTL, Lisboa. Colaborou com Aires Mateus, João Pedro Falcão de Campos e Atelier Pedro Silva Dias (Design). Coordenadora de projectos para Gonçalo Byrne (1998-2000) e Promontório Architects em Salvador da Bahia, Brasil (2005-2006). Professora Convidada da Carleton University, Ottawa (2013, 2015-2016). Membro do júri do FAD Awards 2016. Funda em 2006 o estúdio Barbas Lopes com Diogo Seixas Lopes