Entrevista com a Socióloga Bárbara Lopes

Afinal de contas, o que é que nós somos? Citadinos, não somos. Cidadãos, não conseguimos ser. Porque tiram-nos todo o espaço de acção. Tiram-nos o território, tiram-nos tudo.

Bárbara Lopes – Sou Bárbara Lopes. Dizem que sou socióloga urbana, mas o que eu sou principalmente é uma apaixonada pela cidade. Ficou-me este viruzinho. É realmente através da análise, enfim, dos processos sociais, que eu cheguei à cidade, porque a cidade é a grande produção da vida societária. Daí que sempre a minha actividade andou à volta dos problemas urbanos.

 

Lucinda Correia – Então, Bárbara Lopes, como é que poderia definir o momento actual da transformação de Lisboa?

 

BL – Olhe, eu diria assim, de uma maneira violenta, que se trata de uma investida violenta. Investida violenta, aliás previsível, do capital financeiro, que se tornou praticamente o único motor das transformações do espaço urbano. Isto não acontece só em Lisboa, é evidente. O que é que ele faz? Ele apodera-se do território, do que nele encontra construído, do que nele constrói, do que nele destrói. Determina deste modo, e segundo as suas próprias exigências de crescimento, os modos de vida dos homens e as formas construídas que suportam esses modos de vida. Ele assegura o seu domínio, e assegura-o de dois modos. Vai desapossando, e eu não encontro outro termo, vai desapossando os citadinos da sua própria cidade. E depois preenche o vazio por ele feito deste modo, o vazio de vida urbana, com a chamada aimação cultural, que não passa muitas vezes de triste caricatura, desenraizada, homogeneizada, necessariamente redutora. Onde também faz crescer os seus lucros, porque ele não se distrai. Resultado, temos à vista uma cidade-objecto pronto a consumir. E a consumir por quem? Por turistas que vêm consumi-la e não apreciá-la, não amá-la, porque também eles, por um processo muito global, também já se tornaram de viajantes em consumidores. A Sofia diz uma coisa muito bonita: “Onde?, a contemplação da viagem? Onde está ela?”. Bom, eu gostava de voltar ao desapossamento da cidade porque, para além daqueles que são violentamente atirados para fora dela, a lei dos despejos, todo esse processo dos despejos que nós conhecemos, há também aqueles todos que se queixam: "Eu à Baixa já não vou!". Há também toda a mágoa daqueles que se reviam nas marcas deixadas pelos séculos da sua cidade, tudo isso desaparecido. Ou adulterado. Que umas vezes destrói-se, outras vezes adultera-se, o que se calhar ainda é pior. Quanto a isto não diria mais nada, porque acho q temos aqui matéria para cada um de nós reflectir profundamente. Afinal de contas, o que é que nós somos? Citadinos, não somos. Cidadãos, não conseguimos ser. Porque tiram-nos todo o espaço de acção. Tiram-nos o território, tiram-nos tudo.

 

LC – Depois da era dos gabinetes técnicos locais, os GTL’s, e da era das sociedades de reabilitação urbana, as SRU’s, qual é o lugar das questões locais hoje e qual é a importância de voltarmos a ter questões locais na gestão política da cidade?

 

BL – Olhe, o lugar destas questões está, quanto a mim, na razão directa da perversão a que foram sujeitas essas experiências passadas. Bem, os GTL’s foram extintos. Às SRU foi dada uma missão com um nome errado. Porque reabilitação urbana foi uma coisa que elas já não fizeram. Até porque, e  principalmente, porque os habitantes ficaram arredados do processo. Falemos claro. No final dos anos 90, o sector da construção tinha saturado o mercado. Então era preciso encontrar um outro objecto de criação de lucros. Olhou em volta e o que é que viu? Os centros das cidades, isto é um movimento geral, os centros das cidades em derrocada, porque realmente as leis de mercado tinham funcionado de maneira a, como sabemos, estabilizar a situação, de maneira a ela cair mesmo e então é que se iria mexer nele, que é o que está a acontecer agora. O que é que ele fez, portanto? Arredou, substituiu a gestão urbana que existia pela abertura às leis do mercado. Essa gestão fazia-se com base nos interesses e intervenção dos moradores. Foi portanto substituída pela prática que conhecemos. E é este sector que continua a reclamar que têm de se construir 70000 alojamentos anuais. E eu pergunto, para quem? Para os portugueses desalojados? Para os portugueses em más condições de habitação? Não. Sabemos todos para quem vão ser essas construções. O fundamento da gestão local, parece-me ser a resolução de contradições entre os interesses do grupo que habita o território e os interesses individuais. Essa gestão é função da política urbana, que não se tem feito. Nessa política urbana é indispensável a participação activa, interessada, dos habitantes que são os únicos portadores de valores urbanos que interessa conservar. E também os únicos conhecedores das suas necessidades reais. Neste momento, não vejo uma política urbana em Lisboa orientada pelas necessidades dos habitantes numa perspectiva de coesão social, mas apenas uma colaboração que eu considero inédita, nunca a tinha visto tão forte, com o capital financeiro nacional e internacional. Esse actua de mãos livres a coberto das alterações sofridas recentemente pela legislação urbanística. Neste quadro, a retoma de uma gestão política, no sentido forte da palavra, da cidade, portanto, para e com os habitantes, é a grande urgência. Nem lhe chamo outra coisa, é realmente a grande urgência. Para que a cidade de Lisboa, realmente possa retomar a sua qualidade de cidade dos Homens.

 

LC – Tendo em conta as grandes operações de reabilitação urbana das quais Lisboa é alvo, que metodologia poderia ser desenhada para fazer face aos problemas, desafios sociais, em defesa da cidade?

 

BL – Bom, eu não estou assim propriamente à vontade para desenhar estratégias, não é a minha função, profissionalmente não é isso que me é pedido. Mas parece-me que segundo tudo aquilo de que temos vindo a falar decorre como necessidade urgente, como já disse, a acção organizada por parte dos habitantes. Essa acção tem naturalmente vindo a acontecer. Há iniciativas, há acções, há actuações. Nomeadamente em alguns bairros históricos. Estou a lembrar-me por exemplo da população de Alfama que se revoltou contra a invasão absolutamente imoral dos tuk-tuks. Eu uma vez assisti, num passeio por Alfama, eu vi as pessoas que costumavam sentar-se à porta a conversar de vizinho para vizinho, e eu vi as pessoas terem de retirar os pés para não serem esmagados pelos tuk-tuks. No entanto, essas acções estão muito longe de alcançar o nível necessário. Na ausência de suportes institucionais, que foi perdendo, ela terá de recorrer duma grande força de mobilização, o que só poderá dar-se num contexto muito alargado de informação prévia. Penso que só muito bem informado sobre a situação real e os mecanismos que a produzem é que o cidadão é levado a actuar. Além de informação, é indispensável um enquadramento e a organização de acções concretas e mobilizadoras, com um carácter muito prático, de utilidade imediata, manifesta. Sendo igualmente indispensáveis os líderes de reconhecida honestidade, líderes locais. Agora, para mim, continua muito claro que se o motor actual de produção e transformação da cidade permanecer, também o actual modelo irá continuar. Isto é, as mesmas causas produzirão os mesmos efeitos. Logo, qualquer metodologia de actuação terá forçosamente, de tentar pelo menos, contrariar as forças que estão em acção.

 

LC – Como é que vê a cidade de Lisboa daqui a 10 anos?

 

BL – Bom, olhe, eu, como todos nós, ao longo da vida tenho sempre vindo a confirmar as palavras do Heráclito, que lá no séc. V dos Gregos, dizia justamente aos Gregos “nada perdura se não a mudança”. Por vezes a mudança transforma-se numa espécie de alucinação, que é o que está a acontecer agora em Lisboa. Esta mudança é de tal maneira profunda e acelerada, o risco é a aceleração justamente, e motivada por uma filosofia que parece identificar-se com o vale tudo. Mas esta realidade é-nos apresentada como salvadora. O que me leva a temer que a aceleração continue. E eu aqui faço apelo à transcrição de uma pequena frase do presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Mediação Imobiliária, que afirmava há dias: “O turismo e o imobiliário são neste momento o ouro e o petróleo da economia nacional.”. Economia dixit. Assim, esta mudança tornou-se possível com a abertura às forças do mercado centradas no binómio poder – lucro. Estão isentas de qualquer regulamentação de controlo político, como já disse atrás. Se nada se lhe opuser, poderá vir a criar uma realidade irreconhecível para os contemporâneos, que talvez ainda se chame Lisboa. Esse cenário seria o extremo, se nós estivéssemos seguros da força reactiva que existe em qualquer sociedade, suponho que a mudança está mesmo a seu cargo. Está a cargo da sociedade civil e ela está em preparação. Porque ao longo da História sempre se foram vendo coisas novas e melhores, saídas da acção dos homens em crescimento espiritual. No entanto, acho que foi anteontem, que eu li qualquer coisa que vem muito de acordo com o meu sentimento profundo e era o Sérgio Aires, sociólogo que esteve à frente da Rede Europeia Anti-Pobreza. E ele dizia “pois é, é que no fundo, esta mudança pode vir-se a fazer de uma maneira muito trágica, que é a explosão de todos os paióis, porque as bolsas de pobreza estão a inchar.” E como ele dizia de uma maneira que eu considero magistral “este tipo de crescimento não produz riqueza, produz ricos”. Bom, se as bolsas de pobreza rebentarem, quem cá estiver verá.