Entrevista com o Geógrafo e Economista João Seixas

Se este jogo de forças se mantiver mais ou menos como está, Lisboa cada vez mais nos ventos da globalização, mas sem uma politica mais forte, as desigualdades aumentarão radicalmente. 

Ana Jara - João Seixas, como é que poderia definir o momento actual de transformação de Lisboa?

João Seixas - Eu acho que é um momento de transformação tão profundo como aqueles momentos que transformaram a própria humanidade e a própria civilização. Grande parte dos autores, dos pensadores nas mais várias áreas, todos confluem com a perspectiva de que, desde os anos 90, talvez um bocadinho antes, porque algumas tecnologias começaram um bocadinho antes a ser desenvolvidas, mas espalharam-se, em termos de globalização nos anos 90 e no início do século, estamos numa mudança de paradigma civilizacional tão grande como no tempo do início da Revolução Industrial. Ou, se quiserem, como no tempo da invenção da imprensa do Gutenberg. Isto tem implicações profundas em todo o sistema macroeconómico e macrossocial do planeta inteiro. O sistema económico mundial está a mudar radicalmente por várias razões: pela falência do sistema industrial anterior, que se deslocalizou de outra forma, mas que depois alterou-se tecnologicamente, e também por inovações tecnológicas grandes. A era digital cria várias dimensões completamente novas. Para um geógrafo é um desafio interessantíssimo. Porque é território. Os ecrãs são território e um território económico. Há quem chame isso passagem das economias industriais para as economias de intermediação, em que as empresas e instituições que mais têm valor financeiro capitalizado são as empresas de intermediação, de informação, mas também de troca de serviços: Uber, Airbnb, ..., é uma plataforma, é uma app. Embora a componente física, física real, seja fundamental, mais que nunca, porque pode estar em crise e não devia. Isto impacta directamente nas cidades e na vida urbana porque a produção do espaço foi-se impondo à economia industrial, no séc. XX, no mundo Ocidental. Qualquer investidor percebia que ganhava mais em investir em apartamentos ou em real estate ou shopping malls do que uma fábrica com empregados. Houve uma tendência cada vez maior na produção do espaço, era uma coligação imbatível, toda a gente queria: as pessoas queriam casas, os bancos queriam emprestar, os políticos queriam ganhar eleições. Em Portugal, é evidente, isto crashou. Portanto, há muito boa gente, do lado da política económica e não só, que pensa que o que está a acontecer é um caminho com escolhos, mas que é bom. E, sobretudo porque começam a entrar novos conceitos: o conceito da ecologia, da sustentabilidade, das alterações climáticas. A reabilitação, supostamente, também ajuda para essas coisas. Indo cada vez mais para a construção. E, portanto, cada vez mais ligado à reabilitação do edificado pré-existente. Só que tudo isto está a ser feito ainda com princípios muito frágeis e, sobretudo está a ser feito com base numa estrutura económica e cultural e política pré-existente, modernista, do séc. XX. Este é o grande problema. E é por isso que eu ligo mais uma vez aquilo que eu estava a dizer ao princípio da mudança de paradigma. Não sei se lembram da História, os Liberais contra os Miguelistas, o poder antigo contra o novo. Eu acho que nos sentimos mais ou menos nesses tempos em que os agentes económicos ainda têm o paradigma anterior. Os políticos têm, seguramente. Depois outra coisa muito difícil é a nossa própria estrutura mental: uns são arquitectos, outros são engenheiros, outros são economistas, outros são geógrafos. Se calhar, acho que devíamos ser todos urbanólogos para a partir daí se ter uma noção mais transversal do que é a cidade e os territórios, para depois nos especializarmos no que mais entendêssemos, mas temos de ter essa noção, porque estarmos em caixas. A Administração Pública está em caixas, a política está em silos e o nosso conhecimento também e isto é uma grande dificuldade. É um paradoxo porque a era digital poderia permitir-nos abrir ao mundo, mas está a arregimentar-nos, a fazer aggiornamento para com quem nos damos bem.

LC - Como é que vê a cidade de Lisboa daqui a 10 anos?

JS - Daqui a 10 anos, face a velocidade de mudança que estamos a sentir hoje em dia, 10 anos, neste momento, é longo prazo. Sendo longo prazo, é muito difícil visualizar de uma forma minimamente clara, o que que podemos ver como Lisboa. Apesar disto, há certas coisas que nós podemos considerar como essenciais e fundamentais, tendências que vão acontecer, elementos e princípios que devemos defendê-los a todo custo. Em termos de tendências, eu creio que Lisboa vai continuar a integrar e, se calhar, de uma forma ainda mais ativa do que já é, as tendências de globalização e de cada vez maior crescimento das redes globais de fluxo, de informação, de bens, de serviços, de pessoas. E sobretudo, naquelas em que melhor, ou mais inevitavelmente, se adapta como investimentos de lazer, cidade universitária, redes da Europa do Sul, relações com o Brasil. Estas são quatro áreas especificas, mas que são concretas em termos do mais genérico e global que acontece da integração tecnológica, integração global, etc. A cidade investimento em lazer é particularmente relevante porque Lisbon tem praia, tem surf, tem Sintra, tem sunshine, etc., e, portanto, inevitavelmente vai vir cada vez mais gente de fora para cá. O mundo vai ser cada vez mais fractal no espaço e no tempo e, portanto, Lisboa vai ser cada vez mais integrada nisso. Eu considero que fugir a essa matriz é um erro. Não devemos cair na tentação de Barcelona, nesse aspecto, que é fechar-se sobre si própria e sobre seus valores. Tenho muito receio do conceito de identidade porque em nome da identidade fazem-se as maiores atrocidades desde sempre. E, portanto, a matriz de Lisboa é, desde há 500 anos, uma matriz de abertura, claro que no caminho houve inquisição, religião, escravatura, uma série de coisas, mas a cidade sempre foi relativamente aberta e deve continuar a ser porque é uma enorme virtude. E, precisamente por isso, precisa de regulação como quase nenhuma outra. É mais uma razão para nós sermos muito fortes na política e na regulação desses direitos. É uma questão de não haver tanta desigualdade no acesso aos bens urbanos, aos bens comuns, a cidade, o direito à cidade que é, obviamente, um bem comum. Um problema: temos pouco lastro de boa regulação territorial e urbana. A politica sobre o território, em Portugal, tem pouco lastro, tem pouco Think Tank, tem pouca maturação ainda sobre o pensamento de cidade e o pensamento urbano. Lisboa tem ainda outro problema: é a capital. Normalmente as segundas cidades e as terceiras cidades, afirmam-se como cidade, enquanto que uma cidade-capital se afirma sobretudo por ser. Há uma maior dificuldade, é um paradoxo, nas cidades-capitais em perceber o capital urbano porque aí o capital é nacional ou europeu. Portanto, o que se pode fazer com que a regulação de Lisboa seja mais forte ou minimamente acompanhar essas questões para combater as desigualdades que vão aumentar? O que que pode contrabalançar? Os movimentos sociais e os Think Tanks pequenos, grandes, médios, nano, que vão surgir por todo o sistema metropolitano, de novas gerações e que vão querer fazer tudo e mais alguma coisa de inovador, de direitos urbanos, de bens comuns, de hortas urbanas, de apropriação do espaço público, de contestação. Como vejo Lisboa daqui a 10 anos dependerá muito das forças dos movimentos sociais para que esta politica, esta regulação seja mais exigente. Todas as questões que importam à Lisboa, na ecologia, na mobilidade, nas questões urbanas, nos espaços públicos, na arquitetura, na gestão do estuário do Tejo, na gestão da climatologia, na gestão da habitação, tudo isso terá maior ou menor capacidade consoante esses elementos base. A habitação é um exemplo do que se está a passar hoje: há movimentos sociais, há contestação, há propostas concretas, integradas, mas a maior parte da academia e, sem dúvida, a maior parte da politica está quase sempre fechada a isso porque ainda não fez essa transição que eu referi. Quando devia. Se este jogo de forças se mantiver mais ou menos como está, Lisboa cada vez mais nos ventos da globalização, cada vez mais em mar alto, mas sem uma politica mais forte, as desigualdades aumentam radicalmente. O acesso a habitação vai se tornar muito complicado e tudo isso. Por outro lado, se há movimentos sociais que conseguem influenciar a politica como tem acontecido em todo lado, incluindo a Espanha, que até ganham, chegam a ganhar em politica institucional e conseguem ter outro tipo de atitude, e importa muito aí a sua capacidade de relacionamento nas redes internacionais, aí pode qualificar algumas coisas. No fundo é isso a grande questão: se conseguiremos, se teremos massa critica para influenciar de uma forma mais positiva a politica de regulação ou não. O caso da habitação é particularmente central. Por que? Porque está a sobreaquecer desmedidamente e as pessoas vão começar a protestar a sério.

 

 

 

João Seixas é economista e geógrafo urbano. Investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Doutorado pela Universidade Autónoma de Barcelona em Geografia Urbana e pelo ISCTE em Sociologia do Território. Meste em Urban and Regional Planning pela London School of Economics. Professor e consultor em ciências urbanas, em Lisboa e em Barcelona.